Liderança consciente
Quando a aprovação vira estratégia de carreira
O que o fenômeno “pick-me” revela sobre comportamento, poder e cultura nas organizações.
E se o fenômeno “pick-me” também existisse no trabalho? A pergunta provoca porque desloca para o ambiente profissional um comportamento que ganhou nome e visibilidade nas redes sociais: o esforço para ser escolhida por meio da diferenciação em relação às outras pessoas e da aproximação com aquilo que recebe aprovação.
“Pick-me girl” é uma expressão da cultura digital, não uma categoria científica de personalidade e muito menos um diagnóstico. Em uma análise de 360 vídeos publicados no TikTok com a hashtag #pickmegirl, Aybüke Büyükkağnıcı examinou como o termo circula entre crítica à misoginia internalizada e policiamento de gênero entre mulheres. O estudo ajuda a compreender o fenômeno em seu contexto de origem, mas não autoriza transportar esse rótulo para pessoas ou situações do trabalho.
O que pode atravessar esses dois contextos é um mecanismo mais amplo: pessoas observam quais comportamentos aumentam suas chances de reconhecimento e aprendem a se adaptar. Nas organizações, essa adaptação pode ter menos relação com gênero e mais com poder, especialmente quando alguém possui a capacidade de escolher, promover, reconhecer, incluir ou excluir.
Quando as regras formais convivem com sinais informais muito fortes, o caminho até uma oportunidade deixa de parecer inteiramente ligado à qualidade da contribuição. Passa também pela leitura de quem decide: o que essa pessoa deseja ouvir, quais opiniões recebe bem, de quem costuma se aproximar e que tipo de discordância tolera. A aprovação, então, pode deixar de ser consequência do trabalho e se transformar em estratégia de carreira.
Isso aparece quando alguém concorda sistematicamente com quem tem poder, muda de opinião conforme as pessoas presentes ou tenta se apresentar como exceção, como se o próprio valor dependesse de parecer diferente dos demais. Também pode surgir na competição por proximidade com quem decide e no abandono gradual de limites ou posicionamentos que poderiam custar reconhecimento.
Nenhum desses comportamentos, isoladamente, revela a intenção ou a personalidade de alguém. Concordar pode ser convicção; rever uma opinião pode ser maturidade; cultivar uma relação profissional pode ser legítimo. O problema começa quando a adaptação se torna recorrente, seletiva e necessária para navegar um ambiente em que a franqueza parece mais arriscada do que a concordância.
É tentador atribuir tudo isso à insegurança ou à manipulação individual. Essa leitura, porém, oferece uma explicação confortável demais para a organização. Comportamentos não nascem no vazio. Eles respondem a incentivos, observam consequências e se ajustam aos sinais que a cultura repete, mesmo quando esses sinais contradizem os valores escritos na parede.
Se a proximidade abre mais portas do que a contribuição, as pessoas percebem. Se a discordância produz afastamento enquanto a bajulação produz acesso, elas percebem também. E quando as decisões favorecem sempre os mesmos interlocutores, a organização ensina que competência pode ser importante, mas familiaridade e concordância talvez sejam mais decisivas.
A pesquisa de Mark C. Bolino e Hsin-Hua Hsiung sobre favoritismo da liderança e relações líder-membro ajuda a iluminar essa dinâmica sem estabelecer qualquer relação direta com o fenômeno “pick-me”. O ponto relevante aqui é organizacional: o favoritismo não afeta apenas quem recebe um tratamento preferencial. Ele altera a forma como as relações com a liderança são percebidas pelo grupo e, com isso, influencia a leitura coletiva sobre o que é necessário para ter acesso e reconhecimento.
Esse aprendizado cultural pode ser silencioso. Poucas organizações declaram que esperam lealdade pessoal acima de pensamento crítico, mas algumas comunicam exatamente isso pela maneira como distribuem oportunidades. A distância entre o discurso e a experiência cotidiana ensina mais do que qualquer valor institucional: as pessoas aprendem observando quem pode discordar sem perder espaço e quem precisa demonstrar alinhamento constante para continuar sendo considerado.
O custo de uma cultura que prefere concordância
Quando ser escolhido depende mais de agradar quem tem poder do que de entregar valor, a organização pode começar a produzir comportamentos de aprovação. O resultado não é apenas um ambiente menos autêntico. É uma cultura que empobrece a qualidade das decisões porque reduz a circulação de perspectivas, dúvidas e informações que poderiam contrariar a preferência de quem lidera.
A concordância permanente pode ser confortável para a liderança, mas conforto não é evidência de confiança. Em equipes nas quais as pessoas calculam o custo de cada divergência, o silêncio pode parecer harmonia e a adesão pode ser confundida com comprometimento. Ideias frágeis deixam de ser questionadas, riscos chegam tarde à conversa e profissionais capazes passam a administrar a própria visibilidade antes de oferecer sua melhor contribuição.
A segurança para discordar depende, em parte, do comportamento de quem ocupa posições de autoridade. Em um estudo com equipes de saúde, Ingrid M. Nembhard e Amy C. Edmondson analisaram os efeitos da inclusividade da liderança e do status profissional sobre a segurança psicológica e os esforços de melhoria. A pesquisa não trata de “pick-me” e não deve ser usada para essa conclusão; sua contribuição está em mostrar por que sinais de abertura vindos da liderança importam em contextos atravessados por diferenças de status.
Liderança inclusiva, nesse sentido, não se resume a convidar pessoas diferentes para a sala. Exige tornar possível que elas permaneçam intelectualmente presentes nela, inclusive quando discordam. Isso envolve separar confiança de obediência, proximidade de mérito e questionamento de deslealdade. Também exige reconhecer que a própria liderança participa da construção dos comportamentos que depois critica.
O favoritismo raramente precisa ser anunciado para organizar uma cultura. Basta que certos nomes tenham acesso recorrente, que determinadas vozes sejam acolhidas sem o mesmo escrutínio aplicado às demais e que a discordância seja aceita apenas quando não ameaça a preferência de quem decide. Aos poucos, a organização deixa de selecionar apenas contribuições e passa a selecionar performances de aprovação.
A responsabilidade individual continua existindo. Cada profissional responde pelas escolhas que faz, pelos limites que abandona e pela forma como trata os colegas ao buscar espaço. Mas uma análise séria não termina no caráter de quem se adapta; ela considera o sistema de recompensas que tornou aquela adaptação racional, ou pelo menos compreensível.
Autenticidade no trabalho não significa dizer tudo o que se pensa nem ignorar contexto, hierarquia e consequência. Significa não precisar apagar sistematicamente o próprio julgamento para permanecer elegível. Uma cultura madura não elimina a influência do poder, mas impede que o acesso a ele se torne o principal critério para definir quem merece ser ouvido.
Talvez a pergunta não seja apenas por que algumas pessoas fazem tanto esforço para agradar. A pergunta mais incômoda é o que a nossa cultura está ensinando as pessoas a fazer para serem escolhidas.
Referências
- 01BÜYÜKKAĞNICI, Aybüke. Between Feminism and Misogyny: The “Pick Me Girl” Discourse and Gender Policing Among Women on TikTok. Affilia, publicado online em 15 maio 2026. Acessar
- 02BOLINO, Mark C.; HSIUNG, Hsin-Hua. Playing Favorites: How Leader Favoritism Undermines Leader-Member Exchange Relationships. Academy of Management Proceedings, v. 2014, n. 1, artigo 10521, 2014. Acessar
- 03NEMBHARD, Ingrid M.; EDMONDSON, Amy C. Making it safe: the effects of leader inclusiveness and professional status on psychological safety and improvement efforts in health care teams. Journal of Organizational Behavior, v. 27, n. 7, p. 941–966, 2006. Acessar
Fontes desta reflexão
De onde nasceu este texto — leituras, evidências e pessoas que ajudaram a formar a ideia.
Pesquisas
- Büyükkağnıcı, Aybüke — “Between Feminism and Misogyny: The ‘Pick Me Girl’ Discourse and Gender Policing Among Women on TikTok”, Affilia (2026).Fonte sobre o fenômeno em seu contexto digital; não define uma categoria psicológica nem sustenta sua aplicação direta ao trabalho.
- Bolino, Mark C.; Hsiung, Hsin-Hua — “Playing Favorites: How Leader Favoritism Undermines Leader-Member Exchange Relationships”, Academy of Management Proceedings (2014).Referência sobre favoritismo da liderança e relações líder-membro; não investiga o fenômeno “pick-me”.
- Nembhard, Ingrid M.; Edmondson, Amy C. — “Making it safe: the effects of leader inclusiveness and professional status on psychological safety and improvement efforts in health care teams”, Journal of Organizational Behavior (2006).Sustenta a discussão sobre inclusividade da liderança, diferenças de status e segurança psicológica; não trata do fenômeno “pick-me”.
Compartilhar artigo