Dossiê

The Only Woman in the Room

Capítulo 3 de 4

Liderança Consciente

Diversidade coloca pessoas na sala. Pertencimento decide o que acontece depois.

Você pode contratar uma pessoa diferente e fazê-la se sentir diferente todos os dias.

Georgia Herrera6 min de leitura

Você pode contratar uma pessoa diferente e fazê-la se sentir diferente todos os dias.

As organizações aprenderam a prestar atenção em quem entra. Isso foi necessário e continua sendo importante. Mas composição e pertencimento não são a mesma coisa.

Uma empresa pode aumentar a diversidade da liderança, acompanhar indicadores de representatividade e, ainda assim, manter intactos os pequenos sinais cotidianos que fazem alguém perceber que continua sendo “a pessoa diferente” daquela sala.

É desse intervalo entre entrar e pertencer que trata este capítulo.

O livro que continua sendo escrito

Este Dossiê começou com um livro: *The Only Woman in the Room*, de Lisa Davis. Ela escreve a partir da experiência de ser, com frequência, a única mulher em ambientes de decisão. Mas a leitura que me interessa aqui ultrapassa gênero.

O que Davis descreve é uma condição: perceber que você representa uma diferença relevante em relação à maioria e, a partir dessa percepção, passar a monitorar mais de perto como fala, como pergunta, como discorda, como contribui e, sobretudo, como erra.

Isso acontece com a única mulher da diretoria. Acontece com o profissional negro na área mais branca da empresa. Com quem tem sotaque diferente do sotaque dominante. Com quem veio de outra formação, outra classe, outra geração. Com quem, por qualquer motivo, entende que é lido antes de ser ouvido.

No capítulo anterior investiguei o custo dessa vigilância: ela consome recursos mentais que deveriam estar disponíveis para o trabalho. Aqui me interessa uma pergunta diferente e, para a liderança, mais incômoda: por que esse custo não desaparece quando a organização traz mais pessoas diferentes para dentro?

Duas perguntas que parecem a mesma

Diversidade responde a uma pergunta: quem está na sala? É uma pergunta de composição. Contável, auditável, comparável entre trimestres. Por isso avançou, e é justo reconhecer o esforço real que esse avanço exigiu de muita gente.

Pertencimento responde a outra: quem consegue ocupar essa sala sem gastar energia provando que merece estar nela?

A primeira pergunta se resolve na contratação. A segunda se decide todos os dias, depois dela.

É perfeitamente possível responder bem à primeira e mal à segunda. Mudar a composição é um passo importante. Mas a composição, sozinha, não transforma a experiência de quem entrou.

A pesquisa de Lisa Nishii ajuda a entender esse ponto. Em ambientes com um clima mais inclusivo, a diversidade de gênero esteve associada a menos conflito, e o efeito negativo do conflito sobre a satisfação desapareceu. A composição importa, mas o ambiente em que essa diversidade encontra espaço para funcionar importa também.

O que pertencimento parece na prática

Pertencimento é uma palavra que corre o risco de virar abstração. Prefiro observá-la em comportamentos, porque é assim que ela se manifesta ou não.

Uma pessoa pertence quando pode discordar sem calcular o custo político da discordância. Quando faz uma pergunta básica sem que a pergunta seja registrada como lacuna. Quando erra e o erro é lido como erro, não como confirmação de algo que já se suspeitava sobre pessoas como ela.

Quando contribui e a contribuição circula com o nome dela.

E, talvez o mais silencioso de todos: quando a presença dela não carrega a obrigação de representar bem um grupo inteiro. Existe uma diferença enorme entre estar em uma reunião como profissional e estar em uma reunião como amostra.

Amy Edmondson chama a base disso de segurança psicológica: a crença compartilhada de que aquele grupo é um lugar seguro para assumir riscos interpessoais. A leitura seguinte é minha, não dela: segurança psicológica cria a possibilidade de falar. Pertencimento aparece quando a pessoa deixa de se perguntar, antes de falar, se deveria.

O que a liderança decide sem perceber

Nada disso se resolve em política corporativa. Resolve-se em microdecisões que ninguém registra em ata.

Quem é interrompido e não recebe a palavra de volta. De quem é a ideia quando ela reaparece três minutos depois na voz de outra pessoa. Quem recebe contexto antes da reunião e quem precisa deduzir as regras em tempo real. Quem é convidado para o café informal em que a decisão de verdade já começa a se formar.

Um estudo bastante conhecido sobre pertencimento, realizado no contexto universitário, mostrou algo que ainda me impressiona: uma intervenção breve, que ajudava estudantes a interpretar dificuldades iniciais como parte de um processo de adaptação, e não como evidência de que não pertenciam àquele ambiente, produziu efeitos sobre desempenho acadêmico e indicadores de saúde que ainda eram observados anos depois.

Não cito isso como receita. Cito porque revela a escala do que está em jogo. Se um sinal pequeno na direção certa produz efeito duradouro, os sinais pequenos na direção errada, repetidos todos os dias, também produzem.

É isso que me faz pensar que liderança consciente é, em boa parte, uma prática de atenção. Não a grandes gestos. A gestos de segundos, tomados dezenas de vezes por semana, em que uma pessoa conclui se vale a pena continuar pensando em voz alta ali.

O que fica

A contratação coloca a pessoa dentro da empresa. A liderança ajuda a determinar se ela vai sentir que pertence.

Diversidade muda quem entra na sala. Pertencimento muda o que essas pessoas conseguem entregar.

Talvez o maior indicador de uma liderança consciente não seja apenas quem ela consegue contratar. Seja quem consegue permanecer sem precisar diminuir, esconder ou justificar quem é.

Referências

  1. 01WALTON, Gregory M.; COHEN, Geoffrey L. A brief social-belonging intervention improves academic and health outcomes of minority students. Science, v. 331, n. 6023, p. 1447-1451, 2011. Acessar
  2. 02EDMONDSON, Amy C. Psychological safety and learning behavior in work teams. Administrative Science Quarterly, v. 44, n. 2, p. 350-383, 1999. Acessar
  3. 03NISHII, Lisa H. The benefits of climate for inclusion for gender-diverse groups. Academy of Management Journal, v. 56, n. 6, p. 1754-1774, 2013. Acessar
  4. 04DAVIS, Lisa. The Only Woman in the Room: How to Win in a Workplace (Still!) Built for Men.

Fontes desta reflexão

De onde nasceu este texto — leituras, evidências e pessoas que ajudaram a formar a ideia.

Livros

  • The Only Woman in the Room — Lisa DavisO ponto de partida desta reflexão.
  • The Fearless Organization — Amy EdmondsonO que torna um time um lugar onde se pode pensar em voz alta.

Pensadores relacionados

  • Amy EdmondsonSegurança psicológica no trabalho.
  • Lisa DavisAs regras não escritas de quem é ouvido.

A mesma reflexão, em vídeo

The Only Woman in the Room · Capítulo 3 · 1:02

Você pode contratar uma pessoa diferente — e fazê-la se sentir diferente todos os dias

Diversidade coloca pessoas diferentes na sala. Pertencimento determina se elas conseguem ocupar esse espaço por inteiro.

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