Dossiê

The Only Woman in the Room

Capítulo 4 de 5

Liderança Consciente

Nem todo talento levanta a mão.

Quando a organização confunde visibilidade com potencial, ela não promove quem mais entrega — promove quem melhor se explica.

Georgia Herrera8 min de leitura

Existe uma frase que passa por bom senso em quase toda conversa sobre carreira: quem quer, pede.

Ela sobrevive porque parece justa. Se a porta está aberta, quem bate recebe. Quem não bate, presume-se, não queria tanto. É uma regra simples, e regras simples têm a vantagem de dispensar julgamento — o que também é exatamente o problema delas.

Porque a decisão de bater na porta não mede ambição. Mede outra coisa: a leitura que uma pessoa faz das próprias chances naquele lugar específico.

O que a organização mede quando acha que está medindo potencial

A palavra “potencial” aparece em praticamente todo processo de sucessão, e quase ninguém consegue definir o que ela significa sem recorrer a adjetivos.

Um estudo conduzido por Alan Benson, Danielle Li e Kelly Shue analisou 29.809 profissionais em trilha de gestão de uma grande rede varejista da América do Norte. As mulheres receberam notas de desempenho mais altas e notas de potencial mais baixas que os homens. Essa diferença nas notas de potencial explicou cerca de metade da diferença de promoção entre os dois grupos.

O detalhe que torna o resultado difícil de descartar é o que veio depois: as notas mais baixas de potencial não se confirmaram. As mulheres superaram colegas homens com a mesma nota de potencial no desempenho posterior. Ou seja, não era uma previsão pessimista que acabou certa. Era uma previsão errada.

É um estudo, em uma empresa, em um setor. Não é uma lei universal. Mas é uma evidência incômoda sobre um instrumento que muitas organizações tratam como neutro: a nota de potencial não estava lendo o futuro. Estava lendo alguma outra coisa.

Desempenho é o que a pessoa fez. Potencial é o que alguém acredita que ela seria capaz de fazer. Só o segundo depende inteiramente de quem observa.

Quem se descreve melhor

Parte do que o observador vê chega pré-editada pela própria pessoa. E aqui existe uma diferença sistemática.

Christine Exley e Judd Kessler conduziram experimentos com mais de 4.000 participantes adultos e mais de 10.000 estudantes. Diante de desempenho equivalente, mulheres avaliaram e descreveram o próprio trabalho de forma menos favorável que homens. A diferença aparecia mesmo quando havia incentivo financeiro para se descrever bem, e já estava presente por volta do sexto ano escolar.

Vale ser preciso sobre o que esse resultado é e o que ele não é: o estudo trata de autoavaliação em uma tarefa específica, em ambiente experimental. Ele não afirma que mulheres são menos confiantes em tudo, nem que a autopromoção é o único fator de progressão. O que ele mostra é que a mesma entrega pode chegar ao avaliador embrulhada de duas maneiras diferentes — e que a diferença na embalagem não é aleatória.

Há um segundo achado que desmonta a versão preguiçosa dessa conversa. Benjamin Artz, Amanda Goodall e Andrew Oswald usaram dados que ligam empregadores e empregados na Austrália para testar a ideia de que “mulheres não pedem”. Elas pediram — com frequência estatisticamente semelhante à dos homens. Receberam menos.

Isso muda o lugar do problema. A questão não é apenas quem levanta a mão. É o que acontece com a mão levantada.

O silêncio que parece falta de ambição

A partir daqui, a leitura é minha, não dos estudos.

Quando alguém não pede, a organização registra um dado simples: essa pessoa não demonstrou interesse. É uma interpretação econômica, no sentido de barata — não custa nada e resolve o assunto.

Mas não pedir raramente é ausência de desejo. É, quase sempre, um cálculo. A pessoa observou quem foi promovido nos últimos dois anos e reconheceu um padrão. Já pediu antes e recebeu um “ainda não é o momento” sem critério explicado. Viu como certas iniciativas foram lidas como articulação em um colega e como impaciência nela. Concluiu, sem drama, que pedir teria custo e pouco retorno.

Esse cálculo é discreto. Não aparece em pesquisa de clima, não gera conflito, não vira caso de RH. Ele apenas produz silêncio — e silêncio é lido como acomodação.

É o mesmo mecanismo que atravessa este Dossiê desde o primeiro capítulo. Quem se percebe como exceção em um ambiente monitora mais de perto o próprio comportamento, inclusive o comportamento de se oferecer.

O filtro que a liderança instala sem perceber

Nenhum líder decide que vai promover quem se vende melhor. Mas todo líder que decide apenas com base em quem apareceu instalou esse filtro na prática.

Os dados agregados mostram para onde isso leva. No décimo ano do relatório Women in the Workplace, conduzido pela McKinsey com a LeanIn.Org, a cada 100 homens promovidos ao primeiro cargo de gestão, 81 mulheres foram promovidas. O degrau quebrado não está no topo da pirâmide, onde as conversas sobre representatividade costumam se concentrar. Está na primeira promoção — exatamente onde as decisões são mais informais, menos auditadas e mais dependentes da impressão de um único gestor.

Herminia Ibarra, Nancy Carter e Christine Silva descreveram uma distinção útil aqui: mentoria oferece conselho; patrocínio gasta capital político em nome de alguém. Quem não se autopromove costuma ter acesso ao primeiro e não ao segundo. Recebe orientação sobre como se posicionar melhor, e não alguém que diga o nome dela na reunião em que ela não está.

Se a promoção depende de iniciativa individual, a organização terceirizou para o funcionário uma decisão que é dela.

O trabalho que não dá para delegar

Observar não é uma qualidade de temperamento. É um método, e um método tem passos verificáveis.

Saber o que cada pessoa da equipe entregou nos últimos seis meses sem precisar consultar quem contou melhor a história. Distinguir, em uma avaliação, o que é qualidade do raciocínio e o que é desenvoltura na apresentação. Escrever o critério de promoção antes de olhar para os nomes, e não depois. Oferecer o projeto visível a quem não pediu por ele. Perguntar diretamente — a alguém que nunca levantou a mão — o que essa pessoa gostaria de estar fazendo daqui a dois anos, e tratar a resposta como informação, não como cortesia.

Nada disso é generosidade. É redução de erro de medição. A organização que só enxerga quem se apresenta está trabalhando com uma amostra enviesada da própria equipe e chamando isso de meritocracia.

Para refletir

A pergunta que o vídeo deixa é direta, e prefiro não amaciá-la:

Como líder, quem você pode estar deixando invisível sem perceber?

Se a resposta não vier em poucos segundos, provavelmente ela existe.

Talvez o custo mais alto de promover quem pede não seja a injustiça com quem ficou. Seja a empresa nunca descobrir do que essa pessoa era capaz.

Referências

  1. 01BENSON, Alan; LI, Danielle; SHUE, Kelly. “Potential” and the Gender Promotion Gap. American Economic Review, v. 116, n. 2, p. 375-417, 2026. Acessar
  2. 02EXLEY, Christine L.; KESSLER, Judd B. The Gender Gap in Self-Promotion. The Quarterly Journal of Economics, v. 137, n. 3, p. 1345-1381, 2022. Acessar
  3. 03ARTZ, Benjamin; GOODALL, Amanda H.; OSWALD, Andrew J. Do Women Ask? Industrial Relations: A Journal of Economy and Society, v. 57, n. 4, p. 611-636, 2018. Acessar
  4. 04MCKINSEY & COMPANY; LEANIN.ORG. Women in the Workplace 2024: The 10th-Anniversary Report. 2024. Acessar
  5. 05IBARRA, Herminia; CARTER, Nancy M.; SILVA, Christine. Why Men Still Get More Promotions Than Women. Harvard Business Review, set. 2010. Acessar
  6. 06DAVIS, Lisa. The Only Woman in the Room: How to Win in a Workplace (Still!) Built for Men.

Fontes desta reflexão

De onde nasceu este texto — leituras, evidências e pessoas que ajudaram a formar a ideia.

A mesma reflexão, em vídeo

The Only Woman in the Room · Capítulo 4 · 0:45

Se você só promove quem pede, pode estar deixando talentos para trás

Nem todo talento levanta a mão. E isso também é responsabilidade da liderança.

Assistir ao episódio

Compartilhar artigo

LinkedIn